Quinta-feira, Janeiro 19, 2012

Aperto

Enquanto o sonho tem alma, vai calcorreando as entranhas de aventuras sem ilusões, sem realidades, mas com realezas, compassada pelo ponteiro do tempo que corre veloz ou se detém monotonamente diante de números mesmos, chatos e pouco inspiradores. Dentro deste desespero está ele, ora derretido ora sólido, de todas as cores, sem distinção de batimentos. Não sabe muito bem onde mora, se na complexidade da alma, se na podridão do corpo. Sabe que tem no pulsar algo que cheira a vida ou que pelo menos a isso se assemelha...

Sábado, Janeiro 14, 2012

Outros olhares




Talvez te falte escalar esse monte que te limita o horizonte, de facto, cá de baixo, não consegues ver muito mais do que o que te rodeia. Podias inspirar-te no céu e no sol que nele brilha, mas o céu ultrapassa-te e o sol faz-te sombra, o que não te apraz. Se te lavasses de ti mesmo, não serias ninguém, mas se te emproas em ti mesmo, és alguém "ninguenzado". Se eu pudesse, varria a paisagem e retirava-te esse monte por uns instantes, só para veres que depois dele continuam a existir pessoas que valem tanto como tu e outros verdejares tão ricos quanto o teu.

Terça-feira, Janeiro 03, 2012

Vulcões da insensibilidade...

Penso que nos tempos que correm, o importante é procurar acalmar e apaziguar as estruturas internas de cada ser humano, sobretudo as das crianças e dos jovens. Em vez de placar sonhos, devíamos consolidá-los, dar-lhes umas vitaminas extra. E depois, as crianças precisam de se ocupar de brincadeiras, precisam de sonhar com o que desejam ser no futuro, precisam de riscar paredes, brincar na lama e chapinhar na água sem se lembrarem de anunciados ralhetes, enfim, precisam de ser crianças. E os jovens carecem dos tão trágicos desgostos de amores que os levam às lágrimas infundadas, necessitam das rebeldias que fazem questão de ter para chamar a atenção e só porque nós, os adultos, fazemos questão de as contrariar, precisam de ser "cools" e dizer "bué", porque é "nice", precisam da alma teimosa, que nós bem sabemos que têm, mas no fundo enérgica e prometedora, para serem precisamente jovens!!! Com tanta profecia que para aí se apregoa, eu temo por todas estas necessidades, porque alguém lhes anda a ocupar os pensamentos com vulcões que arrasarão toda a Europa e com o tão temido "fim do mundo"!!! Ou seja, alguém anda a tratar de não haver mais crianças e jovens com tudo o que lhes pertence por idade e de quem nós, adultos, precisamos indubitavelmente. Por favor, sosseguem-nos, não os tornem ansiosos, chorosos, preocupados, já temos cá muito disso...apontem-lhes a vida e vivam com eles... deem-lhes esperança, porque afinal, se até sabemos muito no que à nossa disciplina diz respeito, ninguém sabe o conteúdo do dia de amanhã.

Segunda-feira, Janeiro 02, 2012

Make it well

Neste novo ano, impere no teu íntimo a esperança, a perseverança e a loucura que te faça desafiadoramente diferente no coração do mundo. Não esperes um ano bom, tens de ser tu a fazer o ano bom! ;)

Terça-feira, Dezembro 27, 2011

Um degrau...sete filhos!

Vamos chamar Miguel ao senhor do qual nem mesmo eu sei o nome. Contaram-me esta história que me ficou a bailar na cabeça mesmo passado algum tempo depois de a ouvir. Partilho-a convosco, porque me parece pertinente e porque se torna fatalmente comum.



O senhor Miguel viveu naqueles tempos agrestes do centavo e da galocha no pé todo o ano, de uma sardinha que tinha de dar para três, da roupa que se desfazia no corpo. Uma vida inteira a trabalhar, pois a família era numerosa e havia que garantir o escasso que se pudesse ter. Teve sete filhos, que foram crescendo e furando outros caminhos, potencial e esperançosamente melhores que o dos pais.



O senhor Miguel envelheceu e teve um novo lar...o dos idosos! Os filhos têm as suas vidas e não têm tempo nem espaço para o pai. A sua vetustez conferiu-lhe, porque os anos pesam, o estatuto de paciente assíduo e permanente nos hospitais. Numa das vezes, quando lhe deram alta de um dos internamentos, os serviços hospitalares telefonam para o lar de idosos, informando que o senhor Miguel se encontrava estável e que podia regressar para o lar. Atrapalhados com o pessoal que estava em défice, uma funcionária e o próprio presidente da instituição, com quem o senhor Miguel tinha uma relação estreita e amistosa, se deslocaram ao hospital para o ir buscar. Um de cada lado, ajudaram o senhor Miguel a mover-se e este, amparado por duas pessoas que lhe eram queridas, mas que não eram os braços que ele mais queria, a cada degrau que subia apenas dizia paralelamente: "Tive sete filhos!", e mais um, "Tive sete filhos!", e outro, "Tive sete filhos!"



Domingo, Outubro 09, 2011

Diga lá, menina...


Dirige-se à repartição onde lhe podem retirar dúvidas e esclarecer algumas inscrições. Agora tudo está dividido em fila, com separadores, mais parece uma espécie de capa escolar para não se misturarem disciplinas, talvez para maior privacidade dos "clientes" ou até mesmo para nem se verem uns aos outros; ficou a pensar nisso. Já conhecedora da "cabine" para a qual se devia encaminhar, verificou que estava sem funcionária e aguardou que a atendessem. Não é nova na casa, já conta três anos, não é muito, mas é o suficiente para ser conhecida, pensava ela! Também não gosta que lhe olhem para a pasta, mas para os olhos e que, sobretudo, lhe digam "Bom dia"! Distraída com outros pensares, foi subitamente chamada à realidade por um bastante arrogante e altivo "diga lá, menina, o que é que quer?" vindo de um outro "arquivo" da capa escolar. Era ela? Chamavam por ela? Sim, era ela a menina que devia dizer o que queria. Riu-se e foi obediente, disse ao que ia! Entretanto, chegara a funcionária que estava responsável por tornar claras as dúvidas que levava e sentou-se para se informar. É não raras vezes confundida como aluna, não se importa, até toma esses enganos como elogios, mas ficou ofendida com a indiferença e arrogância, não por ela, mas pelos alunos, porque logo depreendeu que, por aquela senhora, os alunos eram tratados de igual forma. É grave este tratamento e é grave não se reconhecerem as pessoas, sinal de que anda muita gente só a olhar para sapatos, uns por vaidade própria, outros para ignorância geral dos demais... e também deve ser por isso que as estrelas só são contempladas pelos pés descalços!

Sexta-feira, Outubro 07, 2011


Ela ficou com a sensação de que eventualmente deixou ir na aragem da vida o papel que tinha a receita da sua felicidade. Esquecera-se do quão doce e suave era o beijo que lhe fez apertar e descompassar o coração como há já tanto tempo não sentia. Sabe que o vento lhe trará esse mesmo papel de uma outra forma e já com a escrita de outro alguém, que na realidade não o possui. Talvez volte a vida a rodopiá-lo por entre outras gentes e canetas, por entre mundos que anseia conhecer, por entre o infinito que o seu coração busca...