" Naquele tempo, Jesus foi à terra d´Ele e começou a ensinar os de lá na sua sinagoga; e de tal maneira que ficavam abismados e diziam: « De onde Lhe vêm semelhante sabedoria e tais milagres? Não é Ele o filho do carpinteiro? Não tem Sua Mãe o nome de Maria? Não se chamam os irmãos, Tiago, José, Simão e Judas? E as irmãs, não estão todas aqui no meio de nós? De onde Lhe vem então tudo isto?» E estavam indispostos com Ele. Mas Jesus observou-lhes: « Um profeta só é desprezado na sua terra e em sua casa». E não fez ali muitos milagres, por causa da falta de fé daquela gente. " Mt 13, 54-58
quarta-feira, agosto 06, 2008
domingo, julho 27, 2008
Impressões...
Ficam-nos imagens, toques e gestos insistentes, permanentes, em ideia fixa e flutuante. Preenchem buracos, ocupam espaços, misturam-se ideias e ideais numa interrogação inútil e descabida, porque amanhã já deixou de ser.
Sair de nós implica um caminho íngreme, sempre a descer. É fácil, não custa e não cansa. Quando regressamos, perdemo-nos confusos e desconhecidos. Porque descemos cegos, não reconhecemos o trilho de regresso. Palmilhamos como se não fossemos de nós mesmos, como se algo absurdo nos tivesse aniquilado os sentidos. E então cansamos e acordamos...
Sair de nós, embriagados pelo que não somos, altera-nos a imagem, despista-nos da subida a empreender.
Descer é salutar, desde que não passemos pelo des-Ser. A partir do momento em que saímos de nós, quer por atitudes quer por pensamentos, deixamos de ter a lucidez, não a consciência, mas a lucidez que nos julgará mais tarde.
quarta-feira, julho 23, 2008
G8 e a fome no mundo...
Diário de Noticias
"Trufas e caviar no jantar da cimeira do G8 sobre FOME
Os líderes das oito economias mais industrializadas do mundo (G8), reunidos numa cimeira no Japão, estão a causar espanto e repúdio na opinião pública internacional, após ter sido divulgada aos órgãos de comunicação social a ementa dos seus almoços de trabalho e jantares de gala.
Reunidos sob o signo dos altos preços dos bens alimentares nos países desenvolvidos - e consequente apelo à poupança -, bem como da escassez de comida nos países mais pobres, os chefes de Estado e de Governo não se inibiram de experimentar 24 pratos, incluindo entradas e sobremesas, num jantar que terá custado, por cabeça, a módica quantia de 300 euros.
Trufas pretas, caranguejos gigantes, cordeiro assado com cogumelos, bolbos de lírio de Inverno, supremos de galinha com espuma de raiz de beterraba e uma selecção de queijos acompanhados de mel e amêndoas caramelizadas eram apenas alguns dos pratos à disposição dos líderes mundiais, que acompanharam a refeição da noite com cinco vinhos diferentes, entre os quais um Château-Grillet 2005, que está avaliado em casas da especialidade online a cerca de 70 euros cada garrafa.
Não faltou também caviar legítimo com champanhe, salmão fumado, bifes de vaca de Quioto e espargos brancos. Nas refeições estiveram envolvidos 25 chefs japoneses e estrangeiros, entre os quais alguns galardoados com as afamadas três estrelas do Guia Michelin.
Segundo a imprensa britânica, o "decoro" dos líderes do G8 - ou, no mínimo, dos anfitriões japoneses - impediu-os de convidar para o jantar alguns dos participantes nas reuniões sobre as questões alimentares, como sejam os representantes da Etiópia, Tanzânia ou Senegal.
Os jornais e as televisões inglesas estiveram na linha da frente da divulgação do serviço de mesa e das reacções concomitantes. Dominic Nutt, da organização Britain Save the Children, citado por várias folhas online, referiu que "é bastante hipócrita que os líderes do G8 não tenham resistido a um festim destes numa altura em que existe uma crise alimentar e milhões de pessoas não conseguem sequer uma refeição decente por dia". Para Andrew Mitchell, do governo-sombra conservador, "é irracional que cada um destes líderes tenha dado a garantia de que vão ajudar os mais pobres e depois façam isto".
A cimeira do G8, realizada no Japão, custou um total de 358 milhões de euros, o suficiente para comprar 100 milhões de mosquiteiros que ajudam a impedir a propagação da malária em África ou quatro milhões de doentes com sida. Só o centro de imprensa, construído propositadamente para o evento, custou 30 milhões de euros."
Os líderes das oito economias mais industrializadas do mundo (G8), reunidos numa cimeira no Japão, estão a causar espanto e repúdio na opinião pública internacional, após ter sido divulgada aos órgãos de comunicação social a ementa dos seus almoços de trabalho e jantares de gala.
Reunidos sob o signo dos altos preços dos bens alimentares nos países desenvolvidos - e consequente apelo à poupança -, bem como da escassez de comida nos países mais pobres, os chefes de Estado e de Governo não se inibiram de experimentar 24 pratos, incluindo entradas e sobremesas, num jantar que terá custado, por cabeça, a módica quantia de 300 euros.
Trufas pretas, caranguejos gigantes, cordeiro assado com cogumelos, bolbos de lírio de Inverno, supremos de galinha com espuma de raiz de beterraba e uma selecção de queijos acompanhados de mel e amêndoas caramelizadas eram apenas alguns dos pratos à disposição dos líderes mundiais, que acompanharam a refeição da noite com cinco vinhos diferentes, entre os quais um Château-Grillet 2005, que está avaliado em casas da especialidade online a cerca de 70 euros cada garrafa.
Não faltou também caviar legítimo com champanhe, salmão fumado, bifes de vaca de Quioto e espargos brancos. Nas refeições estiveram envolvidos 25 chefs japoneses e estrangeiros, entre os quais alguns galardoados com as afamadas três estrelas do Guia Michelin.
Segundo a imprensa britânica, o "decoro" dos líderes do G8 - ou, no mínimo, dos anfitriões japoneses - impediu-os de convidar para o jantar alguns dos participantes nas reuniões sobre as questões alimentares, como sejam os representantes da Etiópia, Tanzânia ou Senegal.
Os jornais e as televisões inglesas estiveram na linha da frente da divulgação do serviço de mesa e das reacções concomitantes. Dominic Nutt, da organização Britain Save the Children, citado por várias folhas online, referiu que "é bastante hipócrita que os líderes do G8 não tenham resistido a um festim destes numa altura em que existe uma crise alimentar e milhões de pessoas não conseguem sequer uma refeição decente por dia". Para Andrew Mitchell, do governo-sombra conservador, "é irracional que cada um destes líderes tenha dado a garantia de que vão ajudar os mais pobres e depois façam isto".
A cimeira do G8, realizada no Japão, custou um total de 358 milhões de euros, o suficiente para comprar 100 milhões de mosquiteiros que ajudam a impedir a propagação da malária em África ou quatro milhões de doentes com sida. Só o centro de imprensa, construído propositadamente para o evento, custou 30 milhões de euros."
terça-feira, julho 22, 2008
Transparências
Há coisas de que podemos falar muitas vezes tendo a certeza de que nunca deixarão de ser nossas. Há outras que guardamos mais para que não fujam de nós, para que não se tornem estranhas e para que, sobretudo, os outros não as deturpem. E há ainda outras que não se referem para não nos despirem sentimentalmente...No entanto, há outras linguagens que, por mais que nos esforcemos, denunciam o silêncio da verbal e, desta forma, não ficamos nus, mas transparentes!
quarta-feira, julho 09, 2008
Almofada especial!
Há uns tempos atrás, o meu pároco, numa homilia, conta a seguinte história.
Havia aqui no concelho uma idosa acamada e a filha estava a tomar conta dela. Num daqueles últimos desejos, a senhora só pedia à filha que, quando morresse, queria levar a almofada que a confortava com ela. A filha sem entender muito bem, dizia sempre que sim ao pedido da mãe. Porém, o rogo insistente da mãe e o impedimento de nem sequer deixar mudar a fronha deixavam a filha cada vez mais intrigada. Um dia, a senhora faleceu. Finalmente, a filha podia pegar na almofada e satisfazer a sua curiosidade. À primeira vista, era uma almofada mais do que normal, além da sujidade que a corrompia. Decidiu abri-la e eis que lhe surge todo o espanto do mundo... Sabeis o que tinha a almofada??? Estava recheada de dinheiro! Verdade....! Numa lógica quase furiosa, a filha não lhe colocou a almofada no esquife, afinal, tinha estado a tratar dela sem lhe cobrar nada e ainda queria levar o dinheiro com ela.
Havia aqui no concelho uma idosa acamada e a filha estava a tomar conta dela. Num daqueles últimos desejos, a senhora só pedia à filha que, quando morresse, queria levar a almofada que a confortava com ela. A filha sem entender muito bem, dizia sempre que sim ao pedido da mãe. Porém, o rogo insistente da mãe e o impedimento de nem sequer deixar mudar a fronha deixavam a filha cada vez mais intrigada. Um dia, a senhora faleceu. Finalmente, a filha podia pegar na almofada e satisfazer a sua curiosidade. À primeira vista, era uma almofada mais do que normal, além da sujidade que a corrompia. Decidiu abri-la e eis que lhe surge todo o espanto do mundo... Sabeis o que tinha a almofada??? Estava recheada de dinheiro! Verdade....! Numa lógica quase furiosa, a filha não lhe colocou a almofada no esquife, afinal, tinha estado a tratar dela sem lhe cobrar nada e ainda queria levar o dinheiro com ela.
Para que o quereria a defunta? Para subornar a entrada no céu? Ou para precaver a sua sustentabilidade num local onde nada se compra, todo o necessário se conquista em tempo útil de vida?
Por dinheiro, por pedacinhos de terra, por questões mínimas e insignificantes, as pessoas julgam que é o mundo que lhes foge, quando somos nós que fugimos ao mundo e não só: com atitudes destas, fugimos também à verdadeira Vida!
segunda-feira, junho 30, 2008
" Os sete sapatos sujos. "
"Não podemos entrar na modernidade com o actual fardo de preconceitos.
À porta da modernidade precisamos de nos descalçar.
Eu contei "Sete Sapatos Sujos" que necessitamos de deixar na soleira da porta dos tempos novos.
Haverá muitos. Mas eu tinha que escolher e sete é um número mágico:
Primeiro Sapato: a ideia de que os culpados são sempre os outros.
Segundo Sapato: a ideia de que o sucesso não nasce do trabalho.
Terceiro Sapato: o preconceito de que quem critica é um inimigo.
Quarto Sapato: a ideia de que mudar as palavras muda a realidade.
Quinto Sapato: a vergonha de ser pobre e o culto das aparências.
Sexto Sapato: a passividade perante a injustiça.
Sétimo Sapato: a ideia de que, para sermos modernos, temos que imitar os outros."
Mia Couto
À porta da modernidade precisamos de nos descalçar.
Eu contei "Sete Sapatos Sujos" que necessitamos de deixar na soleira da porta dos tempos novos.
Haverá muitos. Mas eu tinha que escolher e sete é um número mágico:
Primeiro Sapato: a ideia de que os culpados são sempre os outros.
Segundo Sapato: a ideia de que o sucesso não nasce do trabalho.
Terceiro Sapato: o preconceito de que quem critica é um inimigo.
Quarto Sapato: a ideia de que mudar as palavras muda a realidade.
Quinto Sapato: a vergonha de ser pobre e o culto das aparências.
Sexto Sapato: a passividade perante a injustiça.
Sétimo Sapato: a ideia de que, para sermos modernos, temos que imitar os outros."
Mia Couto
quarta-feira, junho 25, 2008
Desencontros

Fez-me lembrar de ti esta imagem...Algo perdida, algo turva... A cadência da água como a cadência da vida que se te manifestou um pouco árdua e trabalhosa desde o início. No entanto, cá estás a fazer-lhe frente. Ainda que com desencontros e com aquelas contradições interiores com que nos surpreende de vez em quando, soubeste e continuarás a saber , à tua maneira, torná-la única e bonita. Não desistas e luta pelo o que queres. O que perdes por desistires tornar-se-á muito mais destrutivo do que aquilo que eventualmente possas perder se lutares.
Beijinho sereno à espera no canteiro de sempre ;)
terça-feira, junho 24, 2008
Medo de quê?
" Aquele que escolhe Cristo não está só, ainda que tenha sido abandonado e traído por amigos e conhecidos; o Senhor está a seu lado, dá-lhe força, anima-o e livra-o de todo o mal.
Animados por esta certeza temos medo de quê? "
Animados por esta certeza temos medo de quê? "
quarta-feira, junho 18, 2008
O Vagabundo na Esplanada
(Algo longo, mas não desistais de o ler.)
O Vagabundo na Esplanada
A surpresa, de mistura com um indefinido receio e o imediato desejo de mais acautelada perspectiva de observação, levava os transeuntes a afastarem-se de esguelha para os lados do passeio. Pela clareira que se abria, o vagabundo, de mãos nos bolsos das calças, vinha, despreocupadamente, avenida abaixo. Cerca de cinquenta anos, atarracado, magro, tudo nele era limpo, mas velho e cheio de remendos. Sobre a esburacada camisa interior, o casaco, puído nos cotovelos e demasiado grande, caía-lhe dos ombros em largas pregas, que ondulavam atrás das costas ao ritmo lento da passada. Desfiadas nos joelhos, muito curtas, as calças deixavam à mostra as canelas, nuas, finas de osso e nervo, saídas como duas ripas dos sapatos cambados. Caído para a nuca, copa achatada. Aba às ondas, o chapéu semelhava uma auréola alvacenta. Apesar de tudo isso, o rosto largo e anguloso do homem, de onde os olhos azuis-claros irradiavam como que um sorriso de luminosa ironia e compreensivo perdão, erguia-se, intacto e distante, numa serena dignidade. Era assim, ao que se via, o seu natural comportamento de caminhar pela cidade. Alheado, mas condescendente, seguia pelo centro do passeio com a distraída segurança de um milionário que obviamente se está nas tintas para quem passa. Não só por educação mas também pelo simples motivo de ter mais e melhor em que pensar. O que não sucedia aos transeuntes. Os quais, incrédulos ao primeiro relance, se desviavam, oblíquos, da deambulante causa do seu espanto. E à vista do que lhes parecia um homem livre de sujeições, senhor de si próprio em qualquer circunstância e lugar, logo, por contraste, lhes ocorriam todos os problemas, todos os compadrios, todas as obrigações que os enrodilhavam. E sempre submersos de prepotências, sempre humilhados e sempre a fingir que nada lhes acontecia. Num instante, embora se desconhecessem, aliava-os a unânime má vontade contra quem tão vincadamente os afrontava em plena rua. Pronta, a vingança surgia. Falavam dos sapatos cambados, do fato de remendos, do ridículo chapéu. Consolava-os imaginar os frios, as chuvas e as fontes que o homem havia de sofrer. No entanto, alguém disse:
Manuel da Fonseca, «O Vagabundo na Esplanada», Tempo de Solidão, Lisboa, Arcádia 1973
O Vagabundo na Esplanada
A surpresa, de mistura com um indefinido receio e o imediato desejo de mais acautelada perspectiva de observação, levava os transeuntes a afastarem-se de esguelha para os lados do passeio. Pela clareira que se abria, o vagabundo, de mãos nos bolsos das calças, vinha, despreocupadamente, avenida abaixo. Cerca de cinquenta anos, atarracado, magro, tudo nele era limpo, mas velho e cheio de remendos. Sobre a esburacada camisa interior, o casaco, puído nos cotovelos e demasiado grande, caía-lhe dos ombros em largas pregas, que ondulavam atrás das costas ao ritmo lento da passada. Desfiadas nos joelhos, muito curtas, as calças deixavam à mostra as canelas, nuas, finas de osso e nervo, saídas como duas ripas dos sapatos cambados. Caído para a nuca, copa achatada. Aba às ondas, o chapéu semelhava uma auréola alvacenta. Apesar de tudo isso, o rosto largo e anguloso do homem, de onde os olhos azuis-claros irradiavam como que um sorriso de luminosa ironia e compreensivo perdão, erguia-se, intacto e distante, numa serena dignidade. Era assim, ao que se via, o seu natural comportamento de caminhar pela cidade. Alheado, mas condescendente, seguia pelo centro do passeio com a distraída segurança de um milionário que obviamente se está nas tintas para quem passa. Não só por educação mas também pelo simples motivo de ter mais e melhor em que pensar. O que não sucedia aos transeuntes. Os quais, incrédulos ao primeiro relance, se desviavam, oblíquos, da deambulante causa do seu espanto. E à vista do que lhes parecia um homem livre de sujeições, senhor de si próprio em qualquer circunstância e lugar, logo, por contraste, lhes ocorriam todos os problemas, todos os compadrios, todas as obrigações que os enrodilhavam. E sempre submersos de prepotências, sempre humilhados e sempre a fingir que nada lhes acontecia. Num instante, embora se desconhecessem, aliava-os a unânime má vontade contra quem tão vincadamente os afrontava em plena rua. Pronta, a vingança surgia. Falavam dos sapatos cambados, do fato de remendos, do ridículo chapéu. Consolava-os imaginar os frios, as chuvas e as fontes que o homem havia de sofrer. No entanto, alguém disse:
- Devia ser proibido que indivíduos destes andassem pela cidade. E assim, resmungando, se dispersavam, cada um às suas obrigações, aos seus problemas. Sem dar por tal, o homem seguia adiante. Junto dos Restauradores, a esplanada atraiu-lhe a atenção. De cabeça inclinada para trás, pálpebras baixas, catou pelos bolsos umas tantas moedas, que pôs na palma da mão. Com o dedo esticado, separou-as, contando-as conscenciosamente. Aguardou o sinal de passagem, e saiu da sombra dos prédios para o sol da tarde quente de Verão. A meio da esplanada havia uma mesa livre. Com o à-vontade de um frequentador habitual, o homem sentou-se. Após acomodar-se o melhor que o feitio da cadeira de ferro consentia, tirou os pés dos sapatos, espalmou-os contra a frescura do empedrado, sob o toldo. As rugas abriram-lhe no rosto curtido pelas soalheiras um sorriso de bem estar. Mas o fato e os modos da sua chegada haviam despertado nos ocupantes da esplanada, mulheres e homens, uma turbulência de expressões desaprovadoras. Ao desassossego de semelhante atrevimento sucedera a indignação. Ausente, o homem entregava-se ao prazer de refrescar os pés cansados, quando um inesperado golpe de vento ergueu do chão a folha inteira de um jornal, e enrolou-lha nas canelas. O homem apanhou-a, abriu-a . Estendeu as pernas, cruzou um pé sobre o outro. Céptico, mas curioso, pôs-se a ler. O facto, de si tão discreto, pareceu constituir a máxima ofensa para os presentes. Franzidos, empertigaram-se, circunvagando os olhos, como se gritassem: “ Pois não há um empregado que venha expulsar daqui este tipo!” Nas caras, descompostas pelo desorbitado melindre, havia o que quer que fosse de recalcada, hedionda raiva contra o homem mal vestido e tranquilo, que lia o jornal na esplanada. Um rapaz aproximou-se. Casaco branco, bandeja sob o braço, muito senhor do seu dever. Mas, ao reparar no rosto do homem, tartamudeou:
- Não pode...
E calou-se.
O homem olhava-o com atenta benevolência.
- Disse?
- É reservado o direito de admissão – tornou rapaz, hesitando. – Está além escrito.
Depois de ler o dístico, o homem, com a placidez de quem, por mera distracção, se dispõe a aprender mais um dos confusos costumes da cidade, perguntou:
- Que direito vem a ser esse?
- Bem... – volveu o empregado. – A gerência não admite... Não podem vir aqui certas pessoas.
- E é a mim que vem dizer isso?
O homem estava deveras surpreendido. Encolhendo os ombros, como quem se presta a um sacrifício, deu uma mirada pelas caras dos circunstantes. O azul-claro dos olhos embaciou-se-lhe. - Talvez a gerência tenha razão – concluiu ele, em tom baixo e magoado. – Aqui para nós, também me não parecem lá grande coisa.
O empregado nem podia falar.
Conciliador, já a preparar-se para continuar a leitura do jornal, o homem colocou as moedas sobre a mesa, e pediu delicadamente:
- Traga-me uma cerveja fresca, se faz favor. E diga à gerência que os deixe ficar. Por mim, não me importo.
Manuel da Fonseca, «O Vagabundo na Esplanada», Tempo de Solidão, Lisboa, Arcádia 1973
quarta-feira, junho 04, 2008
A minha Pátria
Estou aqui de passagem. Alguns conhecem-me para além do visível, outros sabem de mim apenas o meu exílio, que é o corpo ou figura que alberga a minha alma. Do corpo cuido apenas o suficiente e o necessário para poder permanecer condignamente nesta sala de espera o tempo que me é facultado. Nele estou emprestada, o corpo não é meu, a alma é que é minha.
Tal como todos os exilados, que não pertencem à pátria que os acolhe, também nós não pertencemos à pátria dos corpos e do mundo onde eles se movimentam. Não significa, todavia, que permitamos tomar conta deles a inércia e a lassidão. Qualquer exilado faz do sonho, da alegria e da vontade de regressar às origens causas justas e imperativas para se manifestar laborioso no sucesso desse objectivo.
A passagem pelo exílio é uma prova de resistência e fidelidade, que nos torna ou não merecedores da verdadeira e única Pátria: " e depois deste desterro nos mostrai Jesus..."
sábado, maio 31, 2008
O coração dos Homens e o Amor de Deus.
O homem vale o que vale o seu coração. E o seu coração vale por onde está e pelo que contém. Se nos afastamos do Amor, não amamos. O Homem é coração e Deus é Amor. O amor, metaforicamente falando, vive no coração e é por isso que Deus permanece sempre em nós, desde que nós estejamos de coração incondicionalmente aberto ao Seu amor. No entanto, amar o Amor é em alguns momentos das nossas vidas difícil, porque amar não é dizer que se ama, é praticar que se ama. Deus pratica-se... O amor de Deus tem como morada o coração dos Homens e o coração dos Homens tem como sentido e função bombear o Amor de Deus.
sexta-feira, maio 30, 2008
Valeu a pena!
Valeu a pena toda uma viagem longa, a luta contra o sono, as poucas horas dormidas...Valeu a pena a espera, o braço dormente de já não mais aguentar o guarda-chuva...Valeu a pena a chuva e os pés encharcados...só para te ver de olhar límpido, cheio de brio e de orgulho saudável. Não te vi passar, mas vi-te de olhos e alma postos no futuro num presente cheio de coragem e optimismo.
Valeu a pena...pelo teu olhar! : )
Beijinho sereno sempre presente***
quarta-feira, maio 14, 2008
Basta-me...
Basta-me filha de Deus, membro da Igreja de Cristo para me identificar. O meu bilhete de identidade é ser cristã a tempo inteiro. Nele não careço de apêndices com outros nomes colectivos a rotular-me o peito e as costas para me complementar de vez em quando.
Ando nua, sem camisolas que equivoquem a coerência e a incoerência, que disfarcem responsabilidades, desculpabilizem e aliviem excepcionalmente consciências.
Ando descalça, mais ao pé de trilhar eficazmente.
As minhas dúvidas ultrapassam o momentâneo, os eventos, o que visto ou deixo de vestir e a visão de quem me observa de forma avaliativa e crítica.
Quem é essencial que me veja, sabe que ando nua, descalça, escondida, com dúvidas e em silêncio...e é aí que nos encontramos...e basta-me!
domingo, maio 11, 2008
Pentecostes
sexta-feira, maio 09, 2008
Vitalis ou Mortalis?
Dos poucos minutos em que me distraio com a televisão, cruzo quase sempre os meus olhos com a publicidade da água vitalis. Será mesmo vitalis? Para se publicitar uma água, coisa simples, bem essencial, foram precisos dois corpos em roupa interior, que talvez o pudor de quem os imaginou no anúncio não deixasse que surgissem nus. Lembro-me automaticamente deste anúncio quando, há dias, alguém muito escandalizado me fala de sexo numa escola do segundo e terceiro ciclos entre crianças de 11/12 anos. Sinceramente, eu não me escandalizo! Imaginai uma criança de 11 anos a ver a publicidade. Ao ver dois corpos a enroscarem-se um no outro, tende paciência e não se trata de ter mente preversa, mas a sugestão que avança é a do sexo. É verdade, muito à custa desses morangos com açúcar (que ainda ninguém teve a feliz ideia de terminar) que tanto faz mal aos filhos e ainda pior aos pais, as crianças mais astutas não podem sequer interpretar mais nada ali. Ora, sendo a água um bem essencial, indispensável à vida, o que achais que pensarão do sexo??? Claro....embora para a frente, que atrás vem gente...
quinta-feira, maio 08, 2008
Íman
Estava eu a dizer que precisávamos de um íman gigante...
E então, nesse exacto momento, contam-me a história de um homem que nunca tinha visto um comboio. Porém, um dia, viu um e ficou muito admirado com os "ímanes gigantes" que atraíam as carruagens e que, consequentemente, as faziam puxarem-se umas às outras. ( Olhe que o mundo é pequeno, que tem destes "encontros" surpreendentes sem presenças, senhor padre... : ) ).
Estava eu a dizer que precisávamos de um íman gigante para movimentar, prendendo, os corpos; para prender, movimentando, as almas. Mas depois reflecti melhor: nós temos esse Íman ao dispor. O que é preciso é que as pessoas se deixem imanar. Sem matéria que nos magnetize, de facto, dificilmente nos podemos unir. Uma carruagem com "íman" e outra sem ele não gastam linhas férreas, não percorrem distâncias, não superam metas. Não basta ser uma carruagem, é necessário ser comboio.
Estava eu a dizer, mas já não disse...as palavras nem sempre encontram ouvidos magnetes e nem sempre elas próprias têm o magnetismo oportuno.
terça-feira, abril 29, 2008
Fugiríeis?
Imaginai que isto vos está a acontecer...
Uma manhã de Domingo, durante a missa, uma comunidade de 2000 membros é surpreendida ao ver dois homens entrar, ambos encapuçados e cobertos de preto da cabeça aos pés, armados com metrelhadoras.
Um dos homens proclamou:
- Quem quiser receber uma bala por Cristo fique onde está.
Imediatamente, o coro fugiu.
Os diáconos fugiram...
E a maior parte da comunidade fugiu...Dos 2000 apenas ficaram 20.
O homem que tinha falado retirou o seu capuz... Depois, olhou para o pregador e disse:
- Pronto, Padre, pus todos os hipócritas na rua. Agora pode começar a sua missa! Tenha um bom dia!
E os dois homens voltaram costas e sairam...
(enviado por email)
Tem muito sumo para espremer esta pequena história. Estou certa de que o conteúdo fulcral dela ninguém tem dificuldade em alcançar, mas...
Por que não ficaram os homens também para a missa? Incluiram-se nos hipócritas.... Criticaram, mas não deram exemplo...E se não pertenciam à mesma comunidade religiosa, que direito lhes assiste em testar a entrega total a Cristo daquelas 2000 pessoas?
E a missa não é do padre, é para todos e de todos.
Passagem de testemunho...
" Não tenhas a pretensão de ser inteiramente novo no que pensares ou disseres. Quando nasceste já tudo estava em movimento e o que te importa, para seres novo, é embalares no andamento dos que vinham detrás."
Vergílio Ferreira, in Pensar
terça-feira, abril 22, 2008
Pela fé...na eternidade!
Só pela fé conseguimos entender verdadeiramente o dom da Eucaristia e, mesmo assim, ainda ficaremos muito aquém do que ela significa. Ninguém consegue perceber na totalidade o mistério que ela encerra.
" A Eucaristia é uma gota de eternidade no tempo." * Onde é que nós, finitos e limitados, conseguimos aprofundar até ao âmago uma gota que seja de infinita e ilimitada eternidade? Entra, então, a fé, trabalha a fé e prevalece a fé...como única forma possível de participarmos intimamente neste dom.
De vez em quando, necessito de fugir à Eucaristia da minha paróquia. Quer dizer, não fujo, vou, mas depois tenho de ir a outra sem ser lá. Sinto falta de estar "sossegada", sem ter de me ocupar a ler ou a cantar. Sinto falta de a sentir mais em silêncio, ainda que no meio de gente. Sinto falta de me voltar para dentro com mais intensidade. Depois que ouvi a frase acima citada, magnificamente inspirada pelo Espírito Santo a quem a proferiu, questionei ainda mais esta minha estranha vontade de me ausentar. Se calhar, procuro essa gota de eternidade e também de transcendência. Se calhar, ouso demais...e tal como Tomé, não estarei a dar testemunho vivo de Igreja reunida, mas é-me imprescindível sair da comunidade. Reitero, só de vez em quando!
Só pela fé.......só a fé fará de nós terrenos, onde essa gota possa repousar e fecundar, para além dos nossos apertados horizontes e tempos!
* Alguém escondido numa gota de humildade :) :) :)
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