terça-feira, dezembro 27, 2011

Um degrau...sete filhos!

Vamos chamar Miguel ao senhor do qual nem mesmo eu sei o nome. Contaram-me esta história que me ficou a bailar na cabeça mesmo passado algum tempo depois de a ouvir. Partilho-a convosco, porque me parece pertinente e porque se torna fatalmente comum.



O senhor Miguel viveu naqueles tempos agrestes do centavo e da galocha no pé todo o ano, de uma sardinha que tinha de dar para três, da roupa que se desfazia no corpo. Uma vida inteira a trabalhar, pois a família era numerosa e havia que garantir o escasso que se pudesse ter. Teve sete filhos, que foram crescendo e furando outros caminhos, potencial e esperançosamente melhores que o dos pais.



O senhor Miguel envelheceu e teve um novo lar...o dos idosos! Os filhos têm as suas vidas e não têm tempo nem espaço para o pai. A sua vetustez conferiu-lhe, porque os anos pesam, o estatuto de paciente assíduo e permanente nos hospitais. Numa das vezes, quando lhe deram alta de um dos internamentos, os serviços hospitalares telefonam para o lar de idosos, informando que o senhor Miguel se encontrava estável e que podia regressar para o lar. Atrapalhados com o pessoal que estava em défice, uma funcionária e o próprio presidente da instituição, com quem o senhor Miguel tinha uma relação estreita e amistosa, se deslocaram ao hospital para o ir buscar. Um de cada lado, ajudaram o senhor Miguel a mover-se e este, amparado por duas pessoas que lhe eram queridas, mas que não eram os braços que ele mais queria, a cada degrau que subia apenas dizia paralelamente: "Tive sete filhos!", e mais um, "Tive sete filhos!", e outro, "Tive sete filhos!"



domingo, outubro 09, 2011

Diga lá, menina...


Dirige-se à repartição onde lhe podem retirar dúvidas e esclarecer algumas inscrições. Agora tudo está dividido em fila, com separadores, mais parece uma espécie de capa escolar para não se misturarem disciplinas, talvez para maior privacidade dos "clientes" ou até mesmo para nem se verem uns aos outros; ficou a pensar nisso. Já conhecedora da "cabine" para a qual se devia encaminhar, verificou que estava sem funcionária e aguardou que a atendessem. Não é nova na casa, já conta três anos, não é muito, mas é o suficiente para ser conhecida, pensava ela! Também não gosta que lhe olhem para a pasta, mas para os olhos e que, sobretudo, lhe digam "Bom dia"! Distraída com outros pensares, foi subitamente chamada à realidade por um bastante arrogante e altivo "diga lá, menina, o que é que quer?" vindo de um outro "arquivo" da capa escolar. Era ela? Chamavam por ela? Sim, era ela a menina que devia dizer o que queria. Riu-se e foi obediente, disse ao que ia! Entretanto, chegara a funcionária que estava responsável por tornar claras as dúvidas que levava e sentou-se para se informar. É não raras vezes confundida como aluna, não se importa, até toma esses enganos como elogios, mas ficou ofendida com a indiferença e arrogância, não por ela, mas pelos alunos, porque logo depreendeu que, por aquela senhora, os alunos eram tratados de igual forma. É grave este tratamento e é grave não se reconhecerem as pessoas, sinal de que anda muita gente só a olhar para sapatos, uns por vaidade própria, outros para ignorância geral dos demais... e também deve ser por isso que as estrelas só são contempladas pelos pés descalços!

sexta-feira, outubro 07, 2011


Ela ficou com a sensação de que eventualmente deixou ir na aragem da vida o papel que tinha a receita da sua felicidade. Esquecera-se do quão doce e suave era o beijo que lhe fez apertar e descompassar o coração como há já tanto tempo não sentia. Sabe que o vento lhe trará esse mesmo papel de uma outra forma e já com a escrita de outro alguém, que na realidade não o possui. Talvez volte a vida a rodopiá-lo por entre outras gentes e canetas, por entre mundos que anseia conhecer, por entre o infinito que o seu coração busca...

quarta-feira, agosto 24, 2011

Pelos dedos das mãos



"Escolho os meus amigos não pela pele ou por outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.A mim não me interessam os bons de espírito, nem os maus de hábitos.Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.Deles não quero resposta, quero o meu avesso.Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim.Para isso, só sendo louco.Quero-os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.Escolho os meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta.Não quero só o ombro ou o colo, quero também a sua maior alegria.Amigo que não ri connosco não sabe sofrer connosco.Os meus amigos são todos assim: metade disparate, metade seriedade.Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade a sua fonte de aprendizagem, mas que lutam para que a fantasia não desapareça.Não quero amigos adultos, nem chatos.Quero-os metade de infância e outra metade de velhice.Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.Tenho amigos para saber quem eu sou.Pois vendo-os loucos e santos, tolos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a normalidade é uma ilusão imbecil e estéril."


Oscar Wilde

Naturezas

“Monge e discípulos caminhavam por uma estrada e, quando passavam a ponte, viram um escorpião a ser arrastado pelas águas. O monge correu pela margem do rio, meteu-se na água e pegou no bicho com a mão.
Quando o trazia para fora, o escorpião picou-o e, devido à dor, o homem deixou-o cair novamente no rio. Dirigiu-se então, à margem e pegou num ramo de árvore. Adiantou-se outra vez a correr, entrou no rio e pegou novamente no escorpião, salvando-o.
Com o escorpião agora seguro na sua mão, o monge voltou a juntar-se aos discípulos na estrada. Estes, que tinham assistido à cena, receberam-no perplexos.
- Mestre, deves estar com muitas dores! Porque é que foste salvar esse bicho ruim e venenoso? Que se afogasse! Seria um a menos! Vê como ele respondeu à tua ajuda, foi picar a mão que o salvou! Não merecia a tua compaixão!
O monge ouviu tranquilamente os comentários e respondeu:
- Ele agiu conforme a sua natureza, e eu de acordo com a minha.”

sexta-feira, agosto 19, 2011

Renegar uma necessidade é o princípio atroz de uma frustração.

quinta-feira, agosto 18, 2011



Não se percam em lamentações, tem de haver alguma coisa que nos mova!

sábado, agosto 13, 2011

A pior das prisões

"...uma construção que sobre si mesma se fecha é evidente que em si mesma encontra as suas próprias grades."

António Alçada Baptista em "Peregrinação Interior", Volume 1

quarta-feira, agosto 10, 2011

Ausência




video


Para si...porque também somos feitos de ausências!

domingo, agosto 07, 2011

Perfeito no Imperfeito

Fazemos a eternidade com o pedaço de imperfeição de que somos feitos. Por mais que possas dizer que não há ideais, eu acredito neles, porque não têm nem podem conter a perfeição. Tu não és um ser perfeito, mas és ideal para alguém e nalguma circunstância, que pode ser a vida! Quantas mais teorias modernistas e fatalistas me possam apresentar acerca das relações, eu acredito que, porque sou eu na minha finitude que amo, um amor pode não ser para sempre, mas pode ser para uma vida!

sábado, agosto 06, 2011

Eles têm tempo...elas estão..."adiadas"!



Termo menos melindroso para "encalhadas", pensam alguns, ainda por cima alguns que encalharam de outras formas! Bem, adiante, para não ferir disposições morais! Ao cimo do percurso e ao fundo das escadas, solta-se a palavra " olha mais duas adiadas"! Não me teria ficado isto na cabeça e ferido a alma se eu não fosse uma dessas duas. Dificilmente se escreve ou se pensa acerca daquilo que de uma ou de outra forma não se sente. Adiada??? Lá vai mais uma introspeção relâmpago "quantos anos tens, Ana? 50?60?100?" Definitivamente, não gostei e apenas respondi que para esclarecimentos não me importava de ter uma conversa em particular, frente a frente, coisa que por vezes me parece ser um embaraço para muitos. Incomodou-me sobretudo por ser uma espécie de pensamento generalizado para com as mulheres, e não só, e de pessoas que deviam muito bem compreender, ainda que depois se desculpem por estar a brincar. Ou será que os solteiros não têm lugar na sociedade? Quer dizer, casa-se ou segue-se uma vida religiosa para se ganhar estatuto, é isso? Há gente que tem a excentricidade de pensar que conhece tudo, que com um jeitinho até podia estabelecer-se como a conselheira lá do sítio, há gente que quer ser engraçada, mas não cai em graça! Convenhamos que pensamos muitas coisas, mas seria talvez sensato adquirir um filtro interno que nos permitisse ser inteligentes na seleção do que proferimos audivelmente. De outra forma, somos claramente inoportunos e desagradáveis. Porque do outro lado há experiências que ninguém conhece, há fragilidades, há penas, há sentimentos, há renúncias que, se não o fossem, seriam motivo de conversa inflamada, há uma história ou algumas histórias! Também fiquei a pensar que quem foi tão infeliz nas palavras escolhidas tem possivelmente uma qualquer espécie de recalcamento ou até mesmo carência, não sei, mera hipótese. Agora que escrevo, fica lavada a "mágoa" e chego à conclusão que, na verdade, estou adiada para a insensibilidade, para a incoerência e para o desrespeito. Nada nos pertence, muito menos a vida que foi emprestada. Imaginai que vos peço um livro emprestado e ao lê-lo pode acontecer que até nem seja muito do meu agrado. Tenho várias hipóteses ou leio até ao fim, ou desisto da leitura ou até posso reescrevê-lo para mim, mas estragar o livro eu não posso, não é meu! Assim é a vida, há coisas nela que só o seu Autor sabe por que as escreveu assim!



Quando nalguma situação vos estiver para sair da boca a expressão conjugada "estar encalhado ou adiado", mesmo que a brincar, pensai duas vezes, porque a primeira é sempre medíocre.

Maçãs

"Mulheres são como maçãs em árvores. As melhores estão no topo. Os homens não querem alcançar essas boas, porque têm medo de cair e se magoarem. Preferem pegar as maçãs podres que ficam no chão, que não são boas como as do topo, mas são fáceis de se conseguir. As maçãs no topo pensam que algo está errado com elas, quando na verdade, ELES estão errados. Elas têm que esperar um pouco para o homem certo chegar, aquele que é valente o suficiente para escalar até ao topo da árvore."


Machado de Assis


P.S. Adiantando-me a hipotéticas intervenções pensáveis, aviso já que Eva não comeu nem deu a comer nenhuma maçã! :p

sexta-feira, agosto 05, 2011

Os meus pais têm um Mercedes



Carta urgente como se vê pelo barquinho S.O.S. em cima! Tem um poder de argumentação fora de idade e um certo tom intimidador, e as amigas é que acham o Jorge Daniel o máximo, mas não deixa de estar engraçada! Só não percebo a razão pela qual a Filipa desenhou dois cães (?) em vez de um menino e de uma menina!


Vale a pena pensar nisto (não nos cães, ou talvez sim, fazei como quiserdes), mas na transformação das nossas crianças, que obviamente não são responsabilizadas diretamente!

segunda-feira, julho 18, 2011

Inquisição com nova face...e nova dona!

Pela segunda vez, no mesmo grupo de pessoas, e mais uma, o "chefe", o argumento inválido, porque de conteúdo destratado. Eu também me canso e eles também me baralham, confesso! Em primeiro lugar espalham-se em conceitos, embora eu entenda que me queiram talvez dizer a mesma coisa: ser cristão não é a mesma coisa que ser católico. A primeira vez levei com um "isso não é de um bom cristão" chapado! Hoje, não me surpreende o reparo do "chefe", já o esperava: "isso não é católico"! Que raio de intervenções! Hoje, de coração a rasgar a pele e com aquele desassossego que as cadeiras não costumam suportar, porque lhes faz cócegas, falo paradoxalmente com mais calma, com a voz bem colocada, sem embargar! Não ser católico ou não ser cristão seria exatamente a minha contradição e a minha incoerência na ação que queriam que eu encetasse; não ser ambas as coisas seria dizer "ámen" a tudo o que convém aos outros nem que para isso se tenha de ser injusto. E então parece-me ouvir a minha consciência a picar de forma tão hábil e sorrateira que começo a sentir um certo sentimento abrasador. Estás assim porquê, se agiste de acordo contigo mesma? Não sou eu, é a fogueira que tens junto aos pés... E de repente fiquei com uma ligeira intuição desperta para o que realmente sentia. Queimada!!! Sem ferimentos evidentes no momento, mas sinto que o meu diagnóstico em cuidados intensivos vai ser: politicamente incorreta! Mas prefiro...a estar na ala dos amorfos com o quadro clínico de: léxico bloqueado pela ocultação de discursos transparentes e pelo consumo exagerado das palavras em discursos politicamente corretos!

sábado, julho 16, 2011

Ignota

Dizes que é uma pena pouca gente me conhecer verdadeiramente?

Pois respondo-te que só me conhece quem é atento e sabe ler para além das linhas do corpo que alugo e do que ele através das suas faculdades manifesta. Numa sociedade de fracos e distraídos leitores, estás à espera de quê?

sexta-feira, julho 15, 2011

Acerca do que fica dentro

‎"Todos nós deviamos ter a possibilidade de viver uma história de amor estrondosa,cheia de aventura e risco!"
De alguém que prefere ficar no anonimato :D

domingo, junho 19, 2011

Com os botões às voltas



...ainda a respeito do ser forte, alguém me respondeu que o maior elogio que se pode receber hoje é "és tão forte", uma vez que estão em causa os grandes valores e a dignidade humana. Ao que eu respondi que muito poucos reconhecem a fortaleza de quem opta por tais valores e dignidade humana. O "és tão forte" dá lugar ao "és tão conservador", "és tão burro", "és tão inacessível", "não aproveitas a vida", e etc. , etc.!!! No fundo a fortaleza acaba por ser imperceptível aqui e faz com que alguns adormeçam tranquilamente, mas sozinhos...

Festa da Primeira Comunhão




Ficaram assim as lembranças dos meninos da Primeira Comunhão! ; )


segunda-feira, junho 06, 2011

sábado, junho 04, 2011

Guia-te pelas mãos e não pelos pés, porque, não precisando de ir muito longe, alcanças o mundo.

quinta-feira, junho 02, 2011




...tenho um nó que vai da cabeça ao coração...!

domingo, maio 22, 2011

Desta vez, vai ser assim...



O direito que me assiste para votar em branco é o mesmo direito que assiste a quem vai votar na incompetência de Sócrates, na prepotência e avidez de Passos Coelho, nas boas intenções (bem sabemos o que está cheio delas) dos outros três candidatos, a quem vai igualmente fazer uma cruz de alto abaixo no boletim de voto, a quem nele quiser escrever,etc., etc... Não me venham dizer que o voto em branco é uma desresponsabilização, por favor!!!!!!!

terça-feira, maio 03, 2011

Desengane-se todo aquele que pensa chegar a todo o lado, se com ele não levar o amor e a essência do que é. Não chega jamais a lado algum e alimentar-se-á de vãos elogios que mais não farão do que aumentar a infelicidade que esconde.

domingo, abril 17, 2011

Sobe, sobe...


Enfrenta a tempestade que encontras depois de subir a primeira montanha, muitas outras se seguirão.


Ao que hoje ousa fazer... sobe, sobe!


Quem é que se leva na barca, afinal? ;)

quarta-feira, abril 06, 2011

Coragem


Aprecio muito sinceramente a tua coragem. Pessoalmente, não estaria no teu lugar, não falaria tão descontraidamente, tão despreocupado com o que quer que seja. Incomodar-me-iam aqueles olhares que parecem tão inofensivos. Não sou definitivamente daqui! Agradeço a tua amizade e fico inteiramente grata a quem te colocou no meu caminho para contigo também poder aprender.

segunda-feira, abril 04, 2011

Balanço balanceado em balancé...


" Missão é partir, caminhar, deixar tudo, sair de si,

quebrar a crosta do egoísmo que nos fecha ao nosso eu.

É parar de dar a volta ao redor de nós mesmos

como se fôssemos o centro do mundo e da vida.

E não se deixar bloquear nos problemas do pequeno mundo a que pertencemos:

a Humanidade é maior.

Missão é sempre partir, mas não devorar quilómetros.

É sobretudo abrir-se aos outros como irmãos, descobri-los e encontrá-los.

E, se para encontrá-los e amá-los é preciso atravessar os mares e voar nos céus,

então missão é partir até aos confins do mundo."

Dom Hélder da Câmara

terça-feira, março 29, 2011

A verdadeira amizade falsa...


O processo da avaliação do desempenho docente está muito longe de ter terminado, até porque, muito sinceramente, tenho receio do que aí vem, cheira-me a qualquer coisa que não é melhor. Mas, enfim, sempre deu para "desafogar" a classe docente, que rejubilou e, em tanto tempo e pela primeira vez este ano, eu vi aquela sala repleta de sorrisos abertamente aliviados, de interpelações jocosas e irónicas, sobretudo para aqueles que sendo iguais a todas as outras galinhas aspiravam a ascender a galos formados em avaliação do desempenho do galinheiro. Bom, chegava um, "olha, já sabes que a avaliação foi suspensa?", chegava outro "Oh, e eu que já tinha o meu dossier prontinho" e ainda outro "Então e agora o tempo que perdemos com isto, incluindo as reuniões enfadonhas e pouco esclarecedoras que só se fizeram porque TODOS os professores seriam avaliados, para que nos serviu?" E há uma que me fica no ouvido "Agora já podemos voltar a ser todos amigos." Agora já podemos voltar a ser todos amigos, repeti para mim! Mesmo que o neguem, este desabafo é a prova de que andavam ali uns tantos a entalar a vida de outros mais. Santa amizade hipócrita que vai continuar como se nada fosse, porque o Inverno já foi, mas volta e urge a confecção continuada de camisolas com malha apertada e enviesada. Esta, sim, é a evidência evidencialmente evidente. Era capaz de sugerir que o próximo modelo de avaliação tivesse como primeiro objectivo suprimir esta falha lamentável e profunda! Ninguém ensina o que não sabe ou aperfeiçoa! Ah, pois esqueci-me, não posso, sou contratada, sem voz no discurso, ups!!!E é nestas alturas que eu sinto vergonha de estar enfiada no meio desta classe que me deixa doente!

sexta-feira, março 25, 2011

Não quero estes sapatos


Esqueço-me da vida. Vou caminhando sem dar conta que muitas vezes me cruzo com a vida que pressinto ser a minha. Calço os sapatos que me apertam, que escravizam os meus pés e os submetem a uma tortura surda que só eu sinto. Quero ir descalça, sujar os pés e reconfortá-los com o privilégio de sentir todos os grãozinhos dessa estrada. Não importa se caminho mais devagar, se fico para trás a cheirar uma flor, a andar de baloiço, a dar a mão, a abraçar e se ninguém me reconhecer quando chegar ao fim do trilho. Ainda posso dizer que não quero estes sapatos, apesar de não ter outros, também não sou de cerimónias; ainda posso dizer que quero o silêncio do meu caminhar nas encostas daquela vida que eu vejo passar e não acompanho. Hoje tirei os sapatos, saí do sótão e comecei a descer as escadas...os meus pés agradeceram e o coração também! Há quanto tempo é que ambos não respiravam o ar que liberta?

quinta-feira, março 17, 2011

Pois é...

Era no tempo em que, no palácio das Necessidades, ainda havia ocasião para longas conversas. (mas podia passar-se hoje...). Um jovem diplomata, em diálogo com um colega mais velho, revelava o seu inconformismo. A situação económica do país era complexa, os índices nacionais de crescimento e bem-estar, se bem que em progressão, revelavam uma distância, ainda significativa, face aos dos nossos parceiros. Olhando retrospetivamente, tudo parecia indicar que uma qualquer "sina" nos condenava a esta permanente "décalage". E, contudo, olhando para o nosso passado, Portugal "partira" bem:

- Francamente, senhor embaixador, devo confessar que não percebo o que correu mal na nossa história. Como é possível que nós, um povo que descende das gerações de portugueses que "deram novos mundos ao mundo", que criaram o Brasil, que viajaram pela África e pela Índia, que foram até ao Japão e a lugares bem mais longínquos, que deixaram uma língua e traços de cultura que ainda hoje sobrevivem e são lembrados com admiração, como é possível que hoje sejamos o mais pobre país da Europa ocidental.

O embaixador sorriu, benévolo e sábio, ao responder ao seu jovem colaborador:

- Meu caro, você está muito enganado. Nós não descendemos dessa gente aventureira, que teve a audácia e a coragem de partir pelo mundo, nas caravelas, que fez uma obra notável, de rasgo e ambição.

- Não descendemos? - reagiu, perplexo, o jovem diplomata - Então de quem descendemos nós?

- Nós descendemos dos que ficaram por aqui...
(Enviado por email)

Dualidade

Às tantas diz ele que os homens são uns bichinhos estranhos, querem tudo, sol na eira e chuva no nabeiro. Ela ficou a remoer aquela sabedoria popular, afinal ele é um bichinho estranho, claro, é homem. As mulheres também são estranhas! Certo, mas os homens esticam-se mais! Um pouco, dizia ele! Não sabe se teria sido diferente (não se conhece apenas o que se vive?), mas ele arriscou a descer sem pára-quedas na consideração dela. Deixou ficar nela uma dualidade imensurável, repartida entre um beijo sentido e profundo e as palavras mais ferozes contra a dignidade feminina! Tivesse ele sido outra pessoa, e teria levado um bom par de estalos e não se falava mais no assunto.
Quase a tocar a essência que acabou por ficar entre ambos, sem nunca lá terem chegado. Não partas o berlinde ou estragas tudo!

quarta-feira, março 16, 2011


Afasta-te ligeiramente de quem possa acordar em ti um lado cruel.
(Acho que não nos devemos relacionar com toda a gente)

terça-feira, março 15, 2011

Segundinho

Percorre o caminho vezes sem conta a olhar para a sentinela do tempo, apressadamente compassado, nem pára na exactidão das horas. Deixa que o oiçam, tornando-se incomodativo no silêncio; competitivo no triunfo; ansioso na expectativa. Porém, dificilmente alguém o vê e se tentam captá-lo, esvai-se em recordações ténues e inexplicáveis. Segundinho quase esquecido por entre a hora e o minuto, alguém que te dá valor torna-te presente existencialmente. E tu não mais podes ser esquivo a quem te sabe agarrar pelo ponteiro da esperança e vive, contigo e pendurado em ti, cada "tic-tac". E eu sei de um coração assim...

quinta-feira, março 10, 2011

No encalço do 4ºdia

É muito bom sentir Jesus. Saber que não se está só. Mostrar, cantando, que Ele reserva um lugar bem especial para cada ser singular. Aquele olhar que seduz e apaixona. Mais difícil é abraçá-lO todos os dias com a mesma convicção. Segui-lO implica três coisas: cruz, lágrima e alegria! A não consciência disto pode induzir a um amor periclitante, a uma falsa expectativa. No encalço dEle, surge a cruz e a lágrima, compensadas pela alegria incalculável de servir. A vida será a mestra nesta matéria!

quarta-feira, março 09, 2011

Acaso

"Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, pois cada pessoa é única
e nenhuma substitui outra.
Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, mas não vai só
nem nos deixa sós.
Leva um pouco de nós mesmos,
deixa um pouco de si mesmo.
Há os que levam muito,
mas há os que não levam nada.
Essa é a maior responsabilidade de nossa vida,
e a prova de que duas almas
não se encontram ao acaso. "

(Antoine de Saint-Exupéry)

terça-feira, março 08, 2011

Precisamos...


Precisamos de Santos
Precisamos de Santos sem véu ou batina.
Precisamos de Santos de calças jeans e ténis.
Precisamos de Santos que vão ao cinema,ouvem música e passeiam com os amigos.
Precisamos de Santos que coloquem Deus em primeiro lugar, mas que se esforcem na faculdade. Precisamos de Santos que tenham tempo todo o dia para rezar e que saibam namorar na pureza e castidade, ou que consagrem a sua castidade.
Precisamos de Santos modernos, Santos do século XXI com uma espiritualidade inserida no nosso tempo.
Precisamos de Santos comprometidos com os pobres e as necessárias mudanças sociais. Precisamos de Santos que vivam no mundo, se santifiquem no mundo, que não tenham medo de viver no mundo.
Precisamos de Santos que bebam Coca-Cola e comam "hot dogs", que usem calças de ganga, que sejam internautas, que escutem "disc-man".
Precisamos de Santos que amem a Eucaristia e que não tenham vergonha de tomar um refrigerante ou comer pizza no fim-de-semana com os amigos.
Precisamos de Santos que gostem de cinema, de teatro, de música, de dança, de desporto. Precisamos de Santos sociáveis, abertos, normais, amigos, alegres, companheiros.
Precisamos de Santos que estejam no mundo; e saibam saborear as coisas puras e boas do mundo mas que não sejam mundanos"
(João Paulo II)
Carta aos Jovens!!

segunda-feira, fevereiro 21, 2011



Não fales dos teus sentimentos a quem jamais os entenderá.

domingo, fevereiro 20, 2011

O fim último da vida não é a excelência.


O autor deste texto é João Pereira Coutinho , jornalista. Vale a pena ler!

"Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades.
Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos.

Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.

Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito.

É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.

Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac.

É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos.

A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade.

O que não deixa de ser uma lástima.

Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!"

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Elogio

Ouvir um elogio esquenta a alma e faz brotar dela entusiasmos suficientes para nos aguentarmos, mesmo quando tudo parece não fazer sentido. Faz-nos experimentar um orgulhoso sabor de unicidade e a certeza de que somos capazes do que quisermos, abre-nos sorrisos gratuitos e, algumas vezes, sós e os olhos enfrentam qualquer pessoa. Além disso, saber que marcámos positivamente alguém faz-nos pensar que seremos sempre memoráveis. Quem não gostar de receber um elogio levante-se e manifeste-se! Já estava há demasiado tempo sentada e levantei-me. Esta política do elogio é como a publicidade enganosa. Quantos elogios não são feitos para se conseguir ou um estatuto superior, ou uma restiazinha de piedade, ou pura e simplesmente para seduzir alguém? Quantos elogios não são feitos para se comprarem pessoas? Agarrei na minha alma e disse-lhe que estava proibida de dormir nas tendas destes encómios, para se manter em alerta e não deixar roubar a pouca dignidade que lhe resta, intimei-a a ser fiel ao que na verdade sente e a só se sentir realmente louvada quando o aplauso fosse sincero, o que teria de verificar pela força da atenção. Não gostas de um elogio? É óbvio que gosto! E foi embora...a pensar que os elogios de algumas pessoas não nos tornam singulares, bem pelo contrário, remetem-nos para a banalidade e para a futilidade!

domingo, fevereiro 13, 2011



Faz cálculos largos e mobiliza o menor número possível de pessoas para te ajudarem a resolver os problemas.

domingo, janeiro 30, 2011

De olhos abertos


Às leituras de alguns eu posso até estar a escrever uma heresia, mas a verdade é que estou farta de uma igrejinha verbómana, em actos silenciosa, com consagrados de horizontes engomados, beatas teoricamente muito práticas e sofridas, incitadoras do mal, gente com a mania de que tem Deus no coração. Não me revejo nisto, de todo, nem vou permitir que me façam quadrada! Confio em Deus de olhos fechados, mas quero conhece-lO mais e sempre de olhos e de coração bem abertos!

segunda-feira, janeiro 17, 2011

Quando não tiveres com quem ganhar um pouco do teu tempo, não o gastes com os insensatos.

terça-feira, janeiro 11, 2011

O Príncipe e a Lavadeira...


...de Nuno Tovar de Lemos, s.j.


Duas opiniões:


"Ser simples é muito mais do que ser complicado. É ser verdadeiro, é prestar atenção, é ouvir com o coração e é falar sem pretender ter sempre razão. Só uma pessoa simples é capaz de estar na vida para os outros e pelos outros e consegue fazê-lo sem se perder no essencial." (Laurinda Alves na sua reflexão sobre o livro)


"Este livro não é de ler, é de ouvir. E mesmo quando se lê, será melhor que seja em voz alta, íntima, como quem conta a sua história à lareira, porque o coração ouve melhor o que é bem dito. Com a idade vamos perdendo a coragem de pedir "conta-me uma história de Deus", à noite, na varanda. E é pena. Ouvir no escuro, sobretudo, ajuda a ver o essencial que é invisível." (Vasco Pinto de Magalhães, s.j., igualmente na sua reflexão sobre o livro)


Duas frases:


O Sótão

"(...)depois de sabidas todas as teorias, a única coisa que, de fundo, nos faz mudar é o amor.(...) Cair do alto das nossas seguranças e das nossas defesas para amar e se deixar amar, este é o maior segredo da mudança."


"Barro sempre seguro nas mãos firmes de um oleiro por entre as voltas da vida. Umas vezes sentimo-nos acariciados, outras apertados; umas vezes vemo-nos quase prontos, outras amassados e sem forma; em certas alturas a obra toda faz sentido, noutras torna-se bastante incompreensível."


Vale muito a pena...


domingo, janeiro 09, 2011

Pela calada da noite, Nicodemos...

Havia um fariseu chamado Nicodemos, que era um dos principais entre os judeus. Veio ter com Jesus de noite e disse-lhe:
«Rabi, nós sabemos que vens da parte de Deus como mestre, pois ninguém pode realizar os milagres que tu fazes, se Deus não está com ele.»
Jesus respondeu-lhe:
«Em verdade, em verdade te digo: Quem não nascer do Alto, não pode ver o Reino de Deus.»
Disse-lhe Nicodemos:
«Como pode um homem nascer, sendo já velho? Pode entrar pela segunda vez no seio da mãe e voltar a nascer?»
Jesus respondeu:
«Em verdade, em verdade te digo: Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus.»
Jo 3,1-5

quinta-feira, janeiro 06, 2011

Complexidade

Quem dera ter um GPS que indicasse as coordenadas do caminho das palavras certas, que podem fazer a diferença e que incentivem a reflexão.
Falar de ti é um caminho delicado. Quase ninguém te crê e muitos te questionam. Não é isso já habitar o pensamento humano? Todos falam de ti nos vídeos do Youtube, nas incontáveis páginas da internet, nos diversos artigos de jornais, revistas, nos livros, enfim, nem sempre com a informação mais refinada, mas falam!
Falo de ti obrigatoriamente, não posso contornar. Oiço mil e uma histórias, escuto perguntas, apontam-me argumentos, alguns já tão velhinhos, dizem-me que não existes, porque ninguém prova. E logo a seguir garantem-me que existem extraterrestres, mesmo que ninguém os tenha visto ainda por estas bandas. Concepções tão frágeis em fase de crescimento algumas, outras em estado de assustadora ruptura e outras ainda em etapa aparentemente estagnada.
Jogo aberto, cartas na mesa sem paninhos quentes, tema: a experiência de Deus! Como um eco na sala, fila após fila, com alguns lugares a exceptuar: "Não acredito em Deus!" Afirmação cerrada, nalguns casos apenas para chamar a atenção e questionar, o que não deixa de ser óptimo, mas noutros feita como uma caução irrevogável, verdade absoluta. E em catadupa lá vêm então todas as questões pertinentes e mais algumas a desviar do assunto, daquelas que levam para bruxas e feitiçarias.
Tudo o que não se alcança com o raciocínio e lógica pode afigurar-se como alvo a abater, porque nos deixa precisamente inseguros e periga a nossa evidente e tão prezada inteligência. Ah, e além disso não permite o controlo de tudo e o ser humano gosta de dominar!
Não sem alguma dificuldade, às vezes dou imensas voltas para chegar à resposta mais recta desejando fazer-me entender com argumentação e explicações fundadas e através de exemplos concretos, vou procurando responder satisfatoriamente ao que me questionam. No entanto, não é tarefa suave e com tudo isto também aprendo de ti necessariamente, não posso evitar. Se houvesse lembrança de como se cresceu e palavra objectiva que definisse como ainda se continua a crescer, seria talvez mais fácil, mas nem isso ajudaria o suficiente, pois cada um cresce singularmente. No caminho de casa penso "como é que te vou levar na próxima aula?" e, não tendo resposta imediata para a minha própria questão, concluo porém que "és simples e complexo ao mesmo tempo e é justamente na tua complexidade e na nossa limitação que está a tua evidência." Não somos nós que temos Deus, é Deus que nos tem a nós, porque o finito não pode conter o Infinito, mas o Infinito envolve o finito!

terça-feira, janeiro 04, 2011

Jogo sujo

Pergunta simples, directa e curta.
Resposta comprometida, imperceptível, fugitiva e embrulhada num "não sei" claramente falseado!
Quando finalmente se começa a perceber a jogada e alcançamos intelectualmente a estratégia e as intenções dos outros jogadores, somos eliminados sem tempo nem espaço para nos recompormos. Mas o problema é que os outros jogadores são da mesma equipa que a nossa! Devem ter comprado o árbitro ou feito um contrato qualquer com o individualismo, esse novo fiscal que anda na ponta dos pés na linha do egoísmo.

segunda-feira, janeiro 03, 2011



Fecha a porta por onde podem entrar os ventos adversos e abriga-se na brisa que lhe percorre o interior. Mas a janela está ainda aberta, não fecha por teimosia da dobradiça que decidiu não facilitar. Ninguém conserta, fica então recortada na parede dia e noite a janela e suas fiéis portadas abertas de par em par, para os que a vêem e para os que a ignoram. Se tu fosses uma janela, que paisagem desejarias poder mostrar a quem de ti se acercasse?
Da janela fica-se pela metade. Mas está tanto frio lá fora e o vento já se sente na sua corrida repetida, incansável e furiosa que lhe apetece manter a porta encerrada. A porta espera impacientemente, já começa a deixar fugir por entre ela umas nesgas de ar e luz que abalroam a tenacidade da janela e não resistirá por muito tempo ao inevitável. A porta exige totalidade. Se tu fosses uma porta, o que ambicionarias exibir quando te abrissem?